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  • Introdução mais
  • Não existe Dislexia? mais
  • A dislexia é causada por um problema visual? mais
  • A Dislexia é causada por problemas psicomotores ou de orientação espacial?  mais
  • Não se pode diagnosticar a Dislexia? mais
  • A Dislexia só pode ser diagnosticada e tratada depois do insucesso escolar? mais
  • Deve evitar-se identificar as crianças disléxicas?  mais
  • A Dislexia passa com o tempo?  mais
  • Aprende-se a ler naturalmente partindo da leitura de textos? mais
  • Todos os métodos de ensino da leitura são igualmente eficientes?  mais
  • Repetir o ano ajuda a ultrapassar a dificuldade? mais
  • A Dislexia está relacionada com a inteligência? mais
  • A Dislexia existe apenas em algumas línguas?  mais
 

Introdução


A palavra “Dislexia” deriva do Grego. O prefixo “dys” significa “dificuldade” e “lexis” significa “palavra escrita”. Dislexia significa “dificuldade com a palavra escrita”.
Até há poucos anos pensava-se que a dislexia era uma perturbação comportamental que primariamente afectava a leitura, era uma incapacidade “invisível”. Não era conhecida, nem identificada, a sua génese orgânica, apenas eram visíveis as suas manifestações.
Actualmente sabe-se que a dislexia é uma incapacidade específica de aprendizagem, de origem neurobiológica, parcialmente herdada, com manifestações clínicas complexas, incluindo défices na leitura, no processamento fonológico, na memória de trabalho, na capacidade de nomeação rápida e na automatização.
Em 1994 o Manual de Diagnóstico e Estatística de Doenças Mentais, DSM IV, inclui pela primeira vez, a dislexia nas perturbações de aprendizagem, utiliza a denominação de “Perturbação da Leitura e da Escrita” e estabelece critérios de diagnóstico.
A dislexia situa-se num contínuo de dificuldades, desde as mais ténues às mais severas. O modelo de distribuição da dislexia segue o modelo da curva normal, existindo uma continuidade entre população disléxica e população não disléxica.
Como acontece com muitas outras doenças, como a hipertensão e a obesidade, não é possível estabelecer limites precisos. A dislexia é uma entidade sem limites claramente definidos, existindo dificuldades leitoras com diferentes graus de severidade.
O desconhecimento da sua génese, processos cognitivos envolvidos, défices subjacentes e princípios educativos eficientes contribuiu para o aparecimento de diversos mitos.



Não existe Dislexia?


Incorrecto. A dificuldade de aprendizagem de leitura e escrita “dislexia” existe.
Os estudos genéticos confirmam o envolvimento de alguns cromossomas. Não existe um gene único identificado, existem vários genes suspeitos, sendo referenciados diversos cromossomas.
Os estudos post-mortem, realizados em cérebros de disléxicos, mostraram diferenças microscópicas e macroscópicas na estrutura cerebral. Os resultados de estudos, realizados em cérebros vivos, evidenciam diferenças semelhantes.
Os estudos de imageologia funcional permitiram identificar diferenças funcionais entre leitores hábeis e maus leitores.



A dislexia é causada por um problema visual?


Incorrecto. A dislexia não é causada por um problema de visão.
Um comunicado emanado pela Comité de Crianças com Dificuldades, pela Academia Americana de Pediatria, pela Academia Americana de Oftalmologia e pela Associação Pediátrica de Oftalmologia e Estrabismo (1992) alertam:
“ os problemas visuais raramente são responsáveis por dificuldades de aprendizagem.
Não se conhece nenhuma causa visual para a dislexia, nem para as dificuldades de aprendizagem, nem nenhum tratamento visual eficiente.
Não existe nenhuma evidência científica que confirme a eficácia do uso de lentes especiais, exercícios oculares ou terapia visual na remediação destas complexas condições neurológicas.
A avaliação e tratamento devem basear-se em procedimentos comprovados por investigação científica válida”.



A Dislexia é causada por problemas psicomotores ou de orientação espacial?


Incorrecto. A dislexia é uma perturbação da linguagem que tem na sua génese um défice fonológico.
Os resultados da investigação não sustentam qualquer relação de interdependência entre os processos cognitivos implicados nesta aprendizagem com o desenvolvimento psicomotor, com as dificuldades de orientação espacial, de lateralidade, de identificação direita e esquerda.
As dificuldades leitoras não se curam com exercícios de psicomotricidade ou de lateralidade. Aprende-se a ler lendo. Em alguns casos são necessárias muitas, e muitas, leituras repetidas até se conseguir realizar uma leitura correcta, fluente e compreensiva.
A existência de erros de substituição das consoantes “ p ” e “ b” têm origem fonológica. Estas consoante confundem-se porque têm o mesmo ponto de articulação, diferem apenas no vozeamento, uma é surda e outra é sonora. Não são erros causados por dificuldades no reconhecimento da direita e da esquerda.



Não se pode diagnosticar a Dislexia?


Incorrecto. É possível diagnosticar, com precisão, quer os défices fonológicos subjacentes à dislexia, quer as dificuldades de aprendizagem de leitura e de escrita.
Os actuais conhecimentos científicos sobre os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem da leitura e os sobre os défices que dificultam esta aprendizagem conduziram à elaboração de testes que avaliam com rigor estas competências.
Estes testes permitem identificar e avaliar precocemente os sinais de risco e as diferentes competências que integram o processo leitor: linguagem compreensiva e expressiva, consciência fonológica, correspondências grafema-fonema, princípio alfabético, fusão e segmentação fonémica, regras contextuais, correcção e fluência leitoras, competência ortográfica, focalização e sustentação da atenção, memória de trabalho, funcionamento cognitivo, competências académicas...


A Dislexia só pode ser diagnosticada e tratada depois do insucesso escolar?



Incorrecto. As dificuldades de aprendizagem de leitura e escrita, dislexia, podem e devem ser diagnosticadas o mais precocemente possível. As crianças com sinais de risco devem ser identificadas e iniciado um programa de desenvolvimento das competências fonológicas.
O conhecimento de que as dificuldades de aprendizagem da leitura e escrita têm como causa principal a existência de défices no processamento dos fonemas da linguagem oral permite a identificação de sinais de alerta e a consequente intervenção precoce.
Segundo vários autores existe um período óptimo para a aprendizagem da leitura e da escrita que se situa entre os 5 e os 7 anos de idade.
Uma das mais importantes implicações, a retirar das recentes descobertas científicas, é a de que as crianças que revelam dificuldades no início da aprendizagem, se não tiverem uma intervenção precoce e especializada, dificilmente recuperam.
Reid Lyon, director do National Institute of the Child Health & Human Development, refere que se uma criança, entre os 5 e os 7 anos de idade, estiver em risco de insucesso, serão necessários cerca de 30 minutos por dia de intervenção, se se esperar pelos 8, 9 anos, serão necessárias duas horas diárias de intervenção.
Susan Hall e Louisa Moats concluíram que a Prevenção e os Programas de Intervenção Precoce que incluem a Consciência Fonológica, a Correspondência Grafema-fonema, a Fluência e Compreensão Leitora, aplicados atempadamente, por tecnicos especializados, conseguem obter sucesso em cerca de 85% dos casos.
Stanovich refere o “Efeito de Matthew” associando-o com a iniciação difícil e lenta da leitura “o rico fica mais rico e o pobre fica mais pobre”. O bom leitor cada vez lê melhor, aprende mais, tem maior sucesso escolar. O mau leitor cada vez lê menos, aprende menos, tem menos sucesso”.
Joseph Torgesen refere que o insucesso precoce na aquisição da leitura de palavras tem implicações extremamente gravosas que se repercutem ao longo da vida escolar e pessoal: atitudes negativas em relação à leitura, redução das oportunidades de desenvolver o vocabulário, perda de oportunidades para desenvolver estratégias de compreensão leitora, baixo rendimento escolar, desvalorização da autoestima, comportamentos desadaptados, desinteresse e, muitas vezes, abandono da escolaridade.



Deve evitar-se identificar as crianças disléxicas?


Incorrecto. Ignorar uma perturbação não ajuda a ultrapassá-la, pelo contrário, contribui para o seu agravamento. Como tratar uma perturbação sem um diagnóstico?
Durante alguns anos existia alguma relutância em avaliar, em diagnosticar, as dificuldades de leitura e escrita. Dizia-se: não de deve “rotular”, “etiquetar”. Hoje ninguém poderá pensar que avaliar, diagnosticar, as dificuldades leitoras tem como objectivo “rotular” ou “etiquetar”. Avalia-se, diagnostica-se, para se intervir, para ajudar as crianças a melhorar a suas competências leitoras, para lhes possibilitar uma vida de sucesso escolar.
Esta abordagem reflectia a falta de conhecimentos científicos sobre: O que é ler? Quais os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem da leitura? Quais as dificuldades experimentadas pelos leitores disléxicos? Quais os métodos reeducativos mais eficientes? Qual a importância da intervenção precoce? Quais os benefícios de uma intervenção especializada?



A Dislexia passa com o tempo?


Incorrecto. A dislexia sendo uma perturbação neurobiológica, de origem genética, que resulta de alterações estruturais e funcionais do cérebro, mantém-se ao longo da vida, embora com diferentes manifestações, não é um atraso maturativo transitório. É uma perturbação tratável, mas não curável.
As dificuldades de aprendizagem de leitura e escrita, dislexia, não passam com o tempo, agravam-se. A discrepância entre as competências dos bons e dos maus leitores acentua-se ao longo dos anos de escolaridade.
Para melhorar a leitura e escrita é necessário implementar um programa reeducativo multissensorial, sistemático e cumulativo.



Aprende-se a ler naturalmente partindo da leitura de textos?


Incorrecto. A linguagem falada é adquirida naturalmente, decorre de uma predisposição biológica, aprende-se a falar naturalmente sem necessidade de ensino formal, explícito. A linguagem escrita foi inventada pelo homem, não segue um processo biologicamente determinado, utiliza códigos específicos para representar a fala. Estes códigos não são aprendidos naturalmente, necessitam de ser ensinados explicitamente, formalmente.
Para aprender a ler, numa escrita alfabética, é necessário tornar explícito, tornar consciente, o que na linguagem oral é um processo cognitivo implícito, inconsciente.
Aprender a ler requer a consciência de que a linguagem é formada por frases, as frases por parágrafos, os parágrafos por palavras, as palavras por sílabas, as sílabas por fonemas e de que as letras do alfabeto são a representação gráfica dos fonemas da linguagem oral.
Sendo a consciência fonológica a competência com maior relevância na aprendizagem da leitura e da escrita, o ensino explícito dos diversos elementos do processamento fonológico deve ser feito do mais fácil para o mais difícil até à sua automatização:
 Consciência das Unidades Lexicais - o conhecimento consciente, a metacognição, de que a fala é formada por palavras.
 Consciência Silábica - o conhecimento consciente de que as palavras são formadas por sílabas.
 Consciência Fonémica - o conhecimento consciente de que as sílabas são formadas por fonemas.
 Princípio Alfabético - o conhecimento consciente de que as letras do alfabeto são a representação gráfica dos fonemas utilizados na linguagem oral e de que cada letra do alfabeto tem um nome e corresponde a um, ou mais, fonemas.
 Correspondências FonemaÛGrafema - o conhecimento automático das diferentes correspondências fonemaÛgrafema.
 Fusão Fonémica - saber ler conjuntamente dois ou mais fonemas.
 Fusões Silábicas Sequenciais - saber ler sequencialmente as diversas sílabas que formam as palavras. Para realizar uma leitura correcta, fluente e compreensiva é necessário realizar as sucessivas fusões fonémicas que formam as palavras, guardá-las na memória, encontrar a pronúncia correcta de cada palavra e aceder ao seu significado.
 Segmentação Silábica - saber segmentar as palavras em sílabas.
 Segmentação Fonémica - saber segmentar as sílabas em fonemas, identificar a fonologia correcta de cada palavra para poder aceder ao seu significado.
 Irregularidades nas Correspondências GrafemaÛFonema - o conhecimento automático das irregularidades Correspondências GrafemaÛFonema. Existem grafemas que não têm correspondência fonémica; fonemas que podem ser representados por diferentes grafemas; grafemas com diferentes correspondências fonémicas; fonemas representados por dois grafemas...
 Compreensão Leitora - para além da capacidade de saber ler correcta e fluentemente, esta competência está fortemente relacionada com a capacidade de compreensão da linguagem oral e com o domínio de um vocabulário oral rico.
 Todas estas competências devem ser integradas através do ensino sistemático e da prática regular de actividades de leitura e de escrita.


Todos os métodos de ensino da leitura são igualmente eficientes?


Incorrecto. Os métodos de ensino não são igualmente eficientes na reeducação das dificuldades de aprendizagem de leitura e escrita, dislexia.
Desde que os resultados dos estudos identificaram os métodos de ensino mais eficientes não possível pensar que todos os métodos são igualmente bons. Essa atitude corresponderia a uma negação da evidência científica.
Estudos realizados por diversos investigadores mostraram que os métodos multissensoriais, sistemáticos e cumulativos são a intervenção mais eficiente. As crianças disléxicas, para além do défice fonológico, apresentam dificuldades na memória auditiva e visual bem como dificuldade de automatização Os métodos de ensino multissensoriais ajudam as crianças a aprender utilizando mais do que um sentido, enfatizam os aspectos cinestésicos da aprendizagem que permitem integrar o “ouvir” e o “ver”, com o “dizer” e o “escrever”.
A Associação Internacional de Dislexia promove, activamente, a utilização de métodos multissensoriais e indica os princípios educativos:
Aprendizagem Multissensorial: A leitura e a escrita são actividades multissensoriais. As crianças têm que olhar para as letras impressas, dizer, ou subvocalizar, os sons, fazer os movimentos necessários à escrita e usar os conhecimentos linguísticos para aceder ao sentido das palavras. Ao utilizar, em simultâneo, as diferentes vias de acesso ao cérebro, são estabelecidas interligações que facilitam a aprendizagem e a memorização.
Sistemático e Cumulativo: A organização dos conteúdos a aprender segue a sequência do desenvolvimento linguístico e fonológico. Inicia-se com os elementos mais fáceis e básicos - os fonemas e os grafema - e progride gradualmente para os mais difíceis. Os conceitos ensinados devem ser revistos sistematicamente para manter e reforçar a sua memorização.
Ensino Directo, Explícito: Os diferentes conceitos devem ser ensinados directa, explícita e conscientemente, nunca por dedução.
Ensino Diagnóstico: Deve ser realizada uma avaliação diagnóstica das competências adquiridas e a adquirir.
Ensino Sintético e Analítico: Devem ser realizados exercícios de ensino explícito da Fusão Fonémica, Fusão Silábica, Segmentação Silábica e Segmentação Fonémica.
Automatização das Competências Aprendidas: As competências aprendidas devem ser treinadas até à sua automatização, isto é, até à sua realização, sem atenção consciente e com o mínimo de esforço e de tempo. A automatização irá disponibilizar a atenção para aceder à compreensão do texto.


Repetir o ano ajuda a ultrapassar a dificuldade?


Incorrecto. Repetir anos de escolaridade não ajuda a ultrapassar as dificuldades, pelo contrário, cria dificuldades acrescidas a nível afectivo emocional: sentimentos de frustração, de incompetência, ansiedade, desvalorização do autoconceito e da autoestima.
O que ajuda a ultrapassar as dificuldades é a implementação, precoce e rigorosa, de programas de intervenção especializada que se apoiem nas recomendações decorrentes da investigação científica.



A Dislexia está relacionada com a inteligência?


Incorrecto. Dislexia é uma dificuldade específica de aprendizagem, independente do nível cognitivo.
Os critérios de diagnóstico do D.S.M-IV, referem explicitamente: “O rendimento na leitura/escrita situa-se substancialmente abaixo do nível esperado para o seu quociente de inteligência...”
A Associação Internacional de Dislexia refere na sua definição: “Dislexia é uma incapacidade específica de aprendizagem, de origem neurobiológica. É caracterizada por dificuldades na correcção e/ou fluência na leitura de palavras e por baixa competência leitora e ortográfica.
Estas dificuldades resultam de um Défice Fonológico, inesperado, em relação às outras capacidades cognitivas e às condições educativas. Secundariamente podem surgir dificuldades de compreensão leitora e experiência de leitura reduzida que pode impedir o desenvolvimento do vocabulário e dos conhecimentos gerais”.
Esta definição vem evidenciar que a principal característica da dislexia são as dificuldades a nível da leitura e da ortografia, sendo essas dificuldades originadas por um défice fonológico, estando intactas todas as outras competências cognitivas.



A Dislexia existe apenas em algumas línguas?


Incorrecto. Existe uma base neurocognitiva universal para a dislexia. Sendo o défice primário da dislexia um défice nas representações fonológicas manifesta-se em todas as línguas. As diferenças de competência leitora entre os disléxicos devem-se, em parte, à transparência, ou opacidade, das diferentes ortografias.
Nas línguas mais transparentes, em que a correspondência grafema-fonema é mais regular, como o Italiano e o Finlandês, são cometidos menos erros. Nas línguas opacas, em que existem muitas irregularidades na correspondência grafema↔fonema, como a língua inglesa, são cometidos mais erros.
A língua portuguesa é uma língua semi-transparente, sendo mais transparente a nível das correspondências grafema↔fonema dos que nas correspondências fonema-grafema, ler é mais fácil do que ortografar.





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